A minha última andança como turista na minha cidade começou com a leitura de um comunicado afixado pela Transtejo na estação fluvial de Belém, informando os utentes da ligação Belém-Porto Brandão-Trafaria que tinha havido necessidade de racionalizar (eufemismo para cortar) o número de travessias. Não me detive pelos horários praticados nos dias úteis mas, ao fim-de-semana, os barcos saem com intervalos nunca inferiores a uma hora, o que pode significar uma longa espera para quem, como eu, não se informar sobre os horários de antemão.
Quando era miúdo, era este o transporte que me levava à praia quando queria ir para a Costa, uma vez que da Trafaria se pode chegar muito facilmente a S. João a pé (especialmente quando se é adolescente) ou de autocarro. Lamento ter de constatar que a Transtejo tem razão. Num dia perfeito para a praia, o Madragoa estava pouco mais que vazio e parecia ter mais tripulantes que passageiros. Com as passagens a cerca de dois euros (ida e volta) e em tempos que obrigam à poupança nos serviços públicos, Lisboa arrisca-se a perder esta ligação, o que seria realmente uma pena.
É que é mesmo uma pena perder este trajecto que, para além de nos levar até às praias em poucos minutos, nos deixa ver Belém numa perspectiva única, sem dúvida alguma a que os seus diferentes construtores queriam realçar quando conceberam estes edifícios, jardins e praças.
É que é mesmo uma pena perder este trajecto que, para além de nos levar até às praias em poucos minutos, nos deixa ver Belém numa perspectiva única, sem dúvida alguma a que os seus diferentes construtores queriam realçar quando conceberam estes edifícios, jardins e praças.
Na margem sul o cenário é menos imponente mas não deixa de ser cativante por isso. O Porto Brandão é um sítio fantástico e não apenas pelos excelentes fondues e carvoadas que se podem comer no restaurante Maré Viva (há outros, mas este é o que conheço melhor). Entalada entre colinas que lhe limitam o tamanho e lhe garantem um isolamento calmo, esta povoação - chamo-lhe assim porque me custa classificar como aldeia um sítio tão perto da capital - tem uma vista única para o Tejo e para Lisboa, enquadrada por um pequeno areal. Tenho um plano que me une ao Porto Brandão: recuperar uma daquelas casas decrépitas viradas para o rio, mudar-me para lá e trocar o carro por um pequeno barco que me leve para o trabalho todos os dias...enfim, mais do que um plano é um sonho em que os detalhes práticos são obliterados pela minha admiração pelo lugar. Resumindo, é muito difícil conceber como é que também aqui se encontram casas desabitadas.
Não me apeei do Madragoa e segui viagem até à Trafaria. Maior que o Porto Brandão, o centro da Trafaria já estava mais buliçoso, com os cânticos da missa matinal que ecoavam pelo Largo da República a serem abafados pela algazarra que se fazia cá fora. É mais difícil caracterizar a Trafaria. Embora tenha o ar tranquilo que se observa no Porto Brandão, vêm-se prédios mais altos, típicos dos dormitórios mas também pequenos chalés de veraneio, que me levam a supor que em tempos este foi um destino de férias. Segui pela Avenida 25 de Abril de 1974 - porque é que a norte do Tejo não se assinala tão enfaticamente esta data? - em direcção às praias.
Até chegar a S. João a paisagem alterna entre matas, bairros de lata (o 2º Torrão ou, como apropriadamente pintaram num muro, o 2º gueto) e moradias de gosto duvidoso - numa delas estava afixada a expressão "Le souvenir" em ferro forjado. Decidi não tomar o caminho mais directo para as praias e optei por seguir pela estrada que passa por trás do campo de futebol do Trafaria até à Cova do Vapor, um bairro de habitações precárias, originalmente de pescadores, onde o Tejo se funde com o mar. O lugar desperta-me sentimentos mistos: se por um lado tenho alguma simpatia pela sua origem simples e por não ter sido ainda perdido para a ganância imobiliária que aquela localização poderia despertar, por outro lado é um sítio degradado, com ruas estreitas de bairro de lata mas em que as tabuletas a anunciar a venda de artigos relacionados com a pesca desportiva indiciam a descaracterização dos moradores originais. Fugi dali, impressionado pela degradação e apressado por uma refrega entre uns cães vadios que estava a começar - na verdade mais por esta razão, que o meu medo irracional de cães nunca me deixa outra escolha.
Redescobri a praia de S. João há poucos meses e foi uma surpresa muito agradável. Os bares de apoio têm bom aspecto, as instalações para os utentes estão muito cuidadas e o ambiente é muito pacato, mesmo nos dias mais concorridos, o que não era o caso desta vez - para além dos bandos de gaivotas que enchiam o areal, a praia quase só estava ocupada pelos indefectíveis surfistas e pelos grupos de pescadores, nos pontões.
Saí de S. João, desta vez pelo caminho mais curto, e reencontrei a avenida das vivendas kitsch (não tomei nota do nome). Já na Trafaria variei ao escolher a ribeirinha Avenida General Moutinho, onde se pode tomar contacto com a sua origem piscatória patente nos pequenos botes que, mais do que no rio, disputam aos automóveis os lugares da calçada, no cheiro a peixe e a maresia e a sal que a animam e nos pescadores que andam de volta das embarcações ou aproveitam o sol para reparar as artes.
Cheguei ao cais poucos minutos antes do Madragoa me levar de volta para Belém atravessando um rio que agora exibia um azul cheio, profundo, com a ignorância feliz que se alheia a crises financeiras, racionalizações de horários, orçamentos escassos. E que contagia com essa ignorância os que dele se aproximam, ainda que cingida a esses breves momentos; sejam eles passados a tentar domar uma vela, a sentir a brisa nos pés nus que se penduram num paredão ou a enfiar os olhos (e a objectiva) na janela de um cacilheiro.
















