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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Gastronomia em Santa Clara


Muito tenho desabafado aqui sobre a minha tristeza por ver tantos espaços de Lisboa ao abandono. Por ver prédios degradados, ruas desertas e bairros vazios. Felizmente, há excepções e uma delas é o Mercado de Santa Clara, o mais antigo mercado coberto de Lisboa. 


Para além de as suas lojas exteriores albergarem inúmeras preciosidades, acolhe também o Centro das Artes Culinárias, resultante de uma parceria entre a Câmara de Lisboa e a associação 'As idades dos Sabores'. O propósito deste projecto é essencialmente preservar o nosso património gastronómico e essa grande arte que é a culinária. E vários são os meios usados para o efeito... 


... uma mostra de utensílios antigos, com uns ferros de queimar açúcar e umas formas de bolos absolutamente maravilhosos...


... uma venda de azeites, queijos, enlatados, frutos secos e outros como só Portugal sabe fazer, que nos encantam com as suas cores e grafismos que invocam outros tempos...







... e cursos de cozinha como o que lá me levou no último Domingo e que cativou também alguns passantes ocasionais, que acabaram por ficar para uma tarde bem passada. Às vezes bastam pequenas coisas para dinamizar um espaço que, tendo sido expurgado da sua função primordial, de outro modo estaria ao abandono. Seria uma pena, porque as suas paredes altas, os ferros forjados e o seu magnífico telhado sentem certamente saudades das bancas de frutas e legumes e, talvez, de peixe que por ali proliferaram em tempos idos. E nada como o elogio à comida para matar essas saudades... 


Mas é no exterior que se pode apreciar a beleza que advém da sua simplicidade. Em dias de Feira, as suas linhas são ofuscadas pela parafernália de objectos que se expõem à frente, nas traseiras e nas lojas laterais, mas no restante tempo ficam as sombras dos interiores das lojas e os reflexos nas suas portas envidraçadas. 

 

E nos arredores, para além do Panteão, o Jardim Botto Machado, um pequeno mas comprido jardim, inusitadamente decorado com croché de cores vivas nos ramos e nos troncos das árvores, dando-lhe um ar de jardim indígena, levando-nos a uma esplanada onde nos dá vontade de preguiçar horas a fio numa tarde de Domingo. 


E, como em qualquer jardim lisboeta que se preze, não poderia faltar uma boa jogatana de bisca lambida, para sossegar os ânimos e ajudar a passar a vida.



sábado, 7 de maio de 2011

O parque, a feira e os livros

Apesar da sua má fama à noite, durante o dia o Parque Eduardo VII é uma espécie de oásis no coração de Lisboa. Tem árvores lindas, está bem cuidado, tem sombras perfeitas para relaxar, ler um livro e, porque não, fazer um piquenique mesmo durante a semana, para variar dos restaurantes de todos os dias e dar um novo alento para uma tarde de trabalho. 


Para além das sombras e relvados, o Parque alberga a Estufa Fria, o Pavilhão Carlos Lopes, uma escultura em homenagem ao vinte e cinco de Abril com um formato questionável e uma alameda de jardins labirínticos em honra de Amália Rodrigues, que segue parque abaixo até ao Marquês do Pombal onde um Sebastião José de Carvalho e Melo de frente para o Tejo e para a sua Baixa não consegue ver o que todos os anos acontece mesmo nas suas costas.  


É que uma vez por ano, entre Abril e Maio (Maio e Junho, num passado recente), o Parque é palco da Feira do Livro, que vai já na sua octogésima primeira edição.


A Feira é um evento muito esperado por todos os amantes de livros: é um espaço onde os livros se vendem, onde os livros se vêem, onde os livros se autografam, onde os livros se discutem, onde os livros se abrem a grandes e a pequenos leitores. Sobretudo aos leitores pequenos, onde a cada ano que passa há mais e mais bancas que lhes são exclusivamente destinadas, mais e mais espaços para as suas brincadeiras e onde a sua imaginação pode fluir, mais e mais programas onde se pretende plantar desde cedo a semente do gosto pela leitura. Eu lembro-me bem de lá ir quando pequena e essas idas tornaram-me numa frequentadora assídua nos anos que se seguiram. E este ano não foi excepção. 


Na feira, continua também a haver a a oportunidade de conhecer pessoalmente os nossos escritores favoritos e falar um pouco com eles, quer seja nas sessões de autógrafos, quer seja nas conferências e colóquios. No fundo, a oportunidade de nos sentirmos mais próximos de todo o mundo literário.


O que noto a cada ano é o cuidado cada vez maior na apresentação das bancas, na concepção do espaço e nos pormenores que são usados para captar a atenção do visitante. Não sou grande fã dos espaços dos grandes grupos editoriais, que vão um pouco contra o conceito habitual de pequenas bancas alinhadas em filas simétricas e perfeitas e afectam de algum modo a sensação de desafogamento que sempre caracterizou a feira. Nesses espaços há seguranças, há alarmes que tocam, há caixas centrais, há a sensação de que estamos num centro comercial. Não gosto disso. No entanto, também por causa desses grandes grupos, também nos seus espaços, há palcos onde se ouvem bandas mais ou menos conhecidas, sobretudo de jazz, mas também de outros estilos musicais. Há grandes pufs e sofás espalhados, há esplanadas, há vinhos e chás que se provam e, com estas inovações, há também um esforço por parte dos pequenos editores para tornarem as suas bancas e o espaço circundante mais atractivo, sem no entanto descaracterizarem a feira.


O que é uma constante de ano para ano é o livro do dia, sempre a preços vantajosos. É-o também o preço extraordinário das colecções descontinuadas, das edições antigas, dos livros que saem dos armazéns das editoras e que, apesar de parecerem menos bonitos que os das novas edições, contêm a mesma história, que é o que realmente importa.  E é a oportunidade de comprar alguns livros e mapas antigos nas bancas dos alfarrabistas, objectos que já passaram por outras mãos e, por isso, guardam um pouco da alma de quem um dia os leu.


Este ano, creio que pela primeira vez, a feira abre ao meio-dia e não às tradicionais quatro da tarde, significando isso que se pode aproveitar a hora de almoço para uma visita, longe das confusões do fim-de-semana. Foi o que fiz, mas apenas com o propósito de ver como estava a feira este ano. O tempo não dá para muita coisa à hora de almoço...

Voltei lá no dia seguinte, ao final da tarde, já com companhia e já com o intuito de  comprar alguns livros. Não que devesse, é cada vez mais difícil ter prateleiras suficientes cá por casa. Ainda assim, é quase impossível resistir...

A luz que desaparecia não me permitiu tirar muitas fotografias. Apenas esta do Marquês, por entre as árvores do parque...


 ... e esta, no final de um concerto de jazz a que assistimos, num daqueles espaços fechados a que me referia há pouco, onde confesso que me soube muito bem estar sentada a ouvir boa música e a tomar um chá quente para afastar o frio que se fazia sentir.
 

 Para o ano, mantenham os palcos, os concertos, os sofás e as esplanadas, mas esqueçam os alarmes, os seguranças, as caixas centrais e a lógica do centro comercial. Pode ser?

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A ladra da feira

Às vezes os meteorologistas acertam e, tal como anunciado, Sábado foi mesmo um dia de bonança entre a tromba de água de Sexta e a chuva contínua de hoje. Como tal, os planos de ir roubar umas imagens à Feira da Ladra mantiveram-se inalterados. Subimos até ao Campo de Santa Clara pela Rua do Mirante, entrando pelo lado mais povoado da feira. Havia alguma agitação no ar: a polícia estava a fiscalizar os vendedores não licenciados e a apreender mercadorias, levando à censura por parte de um dos vendedores da primeira fotografia que tentei tirar. Mas foi um caso isolado: todos os outros anuiram aos nossos pedidos. 

Deste lado da feira temos literalmente que andar aos encontrões. Vende-se de tudo, desde baterias para portátil a verniz para as unhas, passando por pasta dos dentes, pornografia, roupa nova ou usada ou carrinhos de linhas, cheios e vazios.


Perdi-me por três coisas: estes ferros a carvão, as máquinas de escrever e as máquinas de costura. Tudo em mau estado, é claro, mas a despertar em mim o desejo de saber devolver-lhes a antiga glória. Não sabendo e não tendo levado mais do que uns trocos no bolso, lá ficaram à espera de outro comprador mais habilidoso. 



Os botões em osso para as ceroulas, as colecções de moedas, os serviços de jantar - ou de chá, ou de café - incompletos, faqueiros ferrugentos, lençóis que pertenceram a casas finas, minha senhora, toalhas de mesa, novas, velhas ou assim-assim, todos aguardam novos donos, novas histórias, novas vidas.

E há também as revistas e os jornais que relatam dias mais lentos mas nem por isso mais fáceis do que os de agora. E os livros, sempre os livros, que guardam os sinais do tempo e um pouco da alma de quem um dia os leu.


Quando se sobe esta rua que contorna o mercado de Santa Clara, o ambiente da feira transfigura-se. Quase se pode dizer que se entra no lado seu lado mais "chique", onde as velharias passam (ou pretendem passar) a antiguidades, onde o ar malinder dos vendedores dá lugar a outro que faz o que pode por ser ou parecer mais distinto. Desse lado da feira consegue ouvir-se um duzentos euros, mas pode negociar-se vindo de uma banca, onde os meus olhos desconhecedores falham em identificar algo por que eu pagasse aquele valor.

E a feira continua, rua acima, dando agora lugar a artesãos urbanos, que vão vender as suas roupas, casacos, adereços com um ar um pouco mais alternativo, até que, passando-se o Arco (Grande de Cima), a venda habitual e descontraída das bancas dá lugar a bagageiras de carros abertas e mantas estendidas no chão, sempre a postos para serem fechadas ao mínimo vislumbre de um traço de autoridade. E essa, no Sábado, andava por ali, como poderão dizer os feirantes, os clientes e os espectadores menos prováveis que têm lugar privilegiado no cimo de um candeeiro. E eu - nós - apenas a roubar imagens.

   

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Vendedoras da Ribeira

A rapariga que faz a caridade de viver comigo ofereceu-me um pequeno curso de sushi. Para alguém que só sabe fazer decentemente meia dúzia de coisas, incluindo três maneiras de cozinhar ovos, é mais que um desafio. É um voto de confiança na minha capacidade de enfrentar os meus piores receios e doravante usar com mais regularidade a cozinha, aquele antro de acidentes domésticos. Na verdade, este é um presente de grego, apesar das origens espanholas de quem o oferece. Como dizia um professor meu, não há almoços grátis e a oferta tem como contrapartida a expectativa de almoços (e jantares) caseiros preparados por este iniciado nas artes culinárias.

Divago mas com um motivo e que é o de mostrar que para vencer o desafio colocado com este presente, mais do que aprender as técnicas da cozinha japonesa, terei que passar por uma verdadeira mudança de atitude. Nesta lógica decidi-me hoje a entrar numa praça, a da Ribeira, coisa que terei feito tantas vezes quanto os dedos que tenho na mão e que ainda são os mesmos com que nasci, apesar das últimas manhãs de sábado passadas a manipular facas ameaçadoras como dentes de piranhas.

A praça tem uma fachada bonita e situa-se numa envolvente agradável, com a ribeirinha Avenida 24 de Julho pela frente e o pequeno mas simpático jardim da Praça D. Luís I ao seu lado.
Por dentro também não é desprovida de interesse, tendo uma nave central coberta com uma estrutura metálica típica dos edíficios do início do século XX. Quando não funciona como praça tem condições para a realização de eventos como feiras (realiza-se semanalmente uma feira de coleccionismo), refeições para centenas de pessoas e já foram famosas as tardes de baile domingueiras, que juntavam os saudosos dessa tradição lisboeta.
 
Claro que um dos maiores encantos de uma praça são os produtos que lá se vendem, em particular as frutas e hortaliças. Com a máquina ao ombro, é óbvio que era disso que ia à procura quando lá decidi entrar e as minhas expectativas não foram defraudadas.


Mas o inesperado para mim, foram as peixeiras e as vendedoras de frutas e legumes da praça da Ribeira pela sua disponibilidade para a conversa e para se deixarem fotografar. A elas tenho que agradecer a simpatia com que receberam um completo estranho armado com uma máquina fotográfica.
Agradeço à Dona Teresa, que se queixava do negócio andar fraco, mas sem qualquer ponta de mágoa na voz e curiosa quanto à razão que me levava a pedir-lhe para a fotografar - "as fotografias é para quê, filho?". À dona Celeste que anda nesta vida há sessenta e dois anos, e que hoje lá esteve às cinco da manhã apesar da idade e do frio insuportável. À Dona Maria que me contou histórias de quando ainda vivia em Trás-os-Montes e calçada nas suas socas de madeira levava cabritinhos às costas para os vender em Vila Real. E às outras, as que simplesmente se riam do pedido inusitado e apesar disso a ele acediam. Foram elas que fizeram valer a pena a ida à praça da Ribeira.


sábado, 18 de dezembro de 2010

Refazendo os primeiros passos




Hoje comecei o dia no mercado biológico do Príncipe Real, onde já planeava ir há alguns meses. Desta vez não podia deixar de ir prevenida com a máquina e refiz alguns dos passos do dia em que criei este blog. Quando cheguei passava já das dez e meia, mas ainda havia poucos a enfrentar o frio que se fazia sentir. A cor dos legumes contrastava com o verde-castanho das árvores do jardim e com os agasalhos mais ou menos coloridos dos vendedores e clientes.


Percorri as bancas uma a uma, fotografei-as e comprei legumes para a semana e sentei-me durante alguns minutos na Esplanada Príncipe Real, lá dentro claro está, procurando aquecer-me um pouco com um café enquanto observava duas velhas amigas que tinham partilhado a manhã de compras e estavam agora a afastar o frio e a pôr a conversa em dia em frente a duas chávenas de chá.


Com alento renovado, lá parti a passos vagarosos e nariz no ar, para nada perder da manhã da minha cidade. A R. D. Pedro V tem casas maravilhosas e não pude deixar de reparar nas suas entradas e nos ferros forjados das suas janelas. Pequenos detalhes a contrastar com a imensidão da vista sobre Lisboa com que somos presenteados no fim da rua.



No regresso, parei na pastelaria S. Roque para comprar pão. Acho que nunca lá tinha entrado e nem as horríveis decorações de Natal conseguem esconder a sumptuosidade do seu interior. Não creio que haja ainda muitos espaços assim. Hoje fiquei-me pela rua principal e por uns meros trinta minutos de passeio. Na próxima visita, terei que entrar pelas ruelas e pela beleza da sua simplicidade...

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