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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Carta aberta (e ilustrada) à Sra. D. Amália Rodrigues

Lisboa, 1 de Dezembro de 2011


Prezada Senhora,


Estou certo que no sítio onde está já lhe terá chegado a grande notícia do reconhecimento do fado como património imaterial da humanidade. Tão certo como estou de que terá ficado contentíssima com essa novidade. Afinal não me ocorre ninguém que mais tenha contribuído para a divulgação da canção nacional por esse mundo fora, ainda por cima numa época desprovida dos meios que hoje existem e permitem fazê-lo sem que isso implique correr esse mesmo mundo.

Devo confessar que não sou um conhecedor do género. Contam-se pelos dedos de uma mão os fadistas que consigo identificar e se juntar os dedos da outra devem chegar para arrolar os fados que me são familiares. Compreenderá que, para alguém que se orgulha da cidade onde nasceu, que gosta de escrever sobre ela e de a conhecer melhor, esta ignorância sobre a canção de Lisboa me envergonha um pouco. Por isso, aproveitei a efeméride e resolvi visitar o Museu do Fado em Lisboa, no Largo do Chafariz de Dentro, onde Alfama se encosta ao Tejo, no edifício que antigamente albergou a primeira estação elevatória de águas da cidade. 

O museu ocupa três pisos a que se acedem por escadas laterais a um vão central. Uma arquitectura engenhosa que permite tirar proveito da luz que entra pela fachada envidraçada do edifício e que dá espaço aos três painéis (um por cada piso) fotocompostos com imagens de dezenas de artistas do fado, na parede oposta à fachada. 

No piso térreo fica a loja por onde se entra na exposição (uma localização pouco eficaz em termos de marketing mas decerto condicionada pela escassez de espaço) e que tem uma apreciável selecção de CD's à disposição dos visitantes. Neste piso estão expostos alguns galardões internacionais concedidos a fadistas e um pequeno expositor dos géneros musicais que antecederam o fado.

Na cimo da escada que nos leva ao primeiro piso está uma parede coberta de poemas para fados num português que já não usamos e que nos conduz a uma sala onde está uma miniatura da famosa Casa da Mariquinhas. Um ponto alto do museu é o também célebre quadro de José Malhoa, posto em destaque numa sala em que, ao mesmo tempo em que são expostos instrumentos dos primórdios do fado, se dá também nota do carácter boémio, arruaceiro (para não dizer marginal) dos primeiros fadistas. ´


Confesso que fiquei a pensar como é que se conciliaria uma personalidade marialva com a sensibilidade extrema posta nos poemas sobre a saudade, as dores do amor e outros fatalismos. Mas depois lembrei-me que nós - os portugueses, os lisboetas - somos mesmo assim: capazes de cometer as piores sacanices (a senhora desculpe o termo, mas é o melhor que encontro) sem pestanejar, só para não fraquejar perante outros, e, para com aqueles que amamos sermos capazes do mais lamechas e doce mel  - e tudo num mesmo dia. E se o lisboeta é assim, suponho que a canção da cidade não podia ser diferente.

Bom, mas a senhora já não viveu esses tempos de arruaça mas outros que o museu também nos mostra. Tempos em que as letras, mesmo que cantadas para as pequenas audiências das casas de fado tinham que se submeter ao exame prévio, à censura. Tempos em que o fado entrou no teatro de revista, na vitrola, na rádio e depois na televisão e se tornou maior. Talvez a única altura em que foi verdadeiramente mainstream, em que a ideia de lhe dedicar um museu devia parecer um perfeito disparate. Tempos que acabaram com as últimas duas décadas do século passado, parte a que se dedicam as últimas salas do piso mais alto do edifício, onde reside a exposição permanente.

Só me falta contar-lhe sobre a exposição temporária (no piso -1) que encontrei e me encantou. É sobre o trabalho do mestre guitarreiro Óscar Cardoso (sem relação com o futebol, tema que nem queria trazer aqui pelas desventuras por que tem passado o seu Belenenses) e onde se podem ver peças únicas como guitarras com dois braços, uma viola escavada ou uma guitarra gótica. Só lá estão até ao final deste mês.
Para além das exposições o museu tem uma escola, um pequeno auditório, locais de ensaio e até um simpático restaurante. Resumindo, num espaço bastante limitado fez-se um excelente trabalho de divulgação e preservação do fado e da sua memória.

Claro que a vida do fado não depende deste museu nem do patrocínio da UNESCO. Está nas centenas de artistas que o praticam, o ensinam, o tocam e cantam em grandes palcos, como a senhora o fez, ou em esconsas casas de fados como tantos anónimos.

Mas a maior prova da sua vitalidade encontrei-a ao tomar o pequeno-almoço numa pastelaria em frente ao museu, na forma de um fado cantarolado por uma senhora enquanto esperava que lhe servissem uma bica. Para lá das impressões que colhi da visita a museu, este é um testemunho que não queria deixar de partilhar consigo.

Sem mais, despeço-me da senhora reiterando as minhas felicitações pela recente consagração do fado e apresentando-lhe os meus muito respeitosos

melhores cumprimentos,


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Alfama pela manhã


- Bom dia. Posso tirar fotografias? – Disse eu ao entrar na loja de conservas.


A senhora da loja saiu do pequeno escritório atrás do balcão, olhou para mim e, ainda meio hesitante, anuiu ao meu pedido.


- A loja é muito antiga? – Perguntei, enquanto fotografava, por estranhar o ar muito cuidado do recheio da loja que contrasta com a rustiquez das paredes.


- Se achar que oitenta anos é ser antigo… - respondeu-me a senhora num tom pouco paciente.


- O senhor se calhar não sabe o que está a fotografar…


- Não – respondi. Aqui fui eu que hesitei. A resposta óbvia – uma loja de conservas – não me pareceu adequada. Escolhi a deixa que julguei ser a que a senhora procurava para me contar um pouco da história daquele sítio. Enganei-me.


- Se calhar já chega de fotografias… - rematou a senhora, arrumando ali as minhas esperanças. Agradeci e fui-me embora.


Foi assim que começou o meu passeio na manhã do último sábado. A loja é a Conserveira de Lisboa, está na Rua dos Bacalhoeiros desde 1930 e é imperdível. Tem conservas de peixes e mariscos, expostas de forma irrepreensível em prateleiras e balcões à antiga. E até aposto que o atendimento é simpático e competente. O que aconteceu comigo foi incidental e, bem vistas as coisas, eu não era um cliente.




Na verdade o passeio começou um bocado antes, no Terreiro do Paço, com o pequeno-almoço no Martinho da Arcada. Um dos poucos vícios burgueses que tenho é gostar de comer fora a primeira refeição do dia e ter a oportunidade de o fazer por baixo daquelas arcadas, quando Lisboa começa a acordar, não se deve desperdiçar.



Depois de sair da Conserveira segui a Rua dos Bacalhoeiros com a intenção de ir até ao seu final, ao encontro da Rua da Alfândega e em direcção a Santa Apolónia, pela zona ribeirinha. Esse plano foi completamente alterado quando me deparei com um arco escuro a que decidiram chamar, e bem, Arco Escuro e que nos conduz ao beco com o mesmo nome.


A partir daí embrenhei-me no sossego das ruas que me conduziram até à Sé – As escadinhas das Portas do Mar, a Rua das Canastras, a Rua Afonso de Albuquerque e a Travessa do Almargem que se sobe para chegar às Cruzes da Sé. Andei por ali a fotografar as laranjeiras que ornamentam a calçada junto à Sé, até perto do Beco da Caridade. Aí voltei para trás, apanhando a Rua de S. João da Praça para entrar na terra do fado, Alfama. A marcar a fronteira de entrada nessa terra está uma inesperada conquista – um placar numa parede do Largo do Marquês do Lavradio a anunciar uma casa de Fado chamada Marquês da Sé – casa onde há muitas luas se podiam ouvir bandas de música pop e rock que davam os primeiros passos.


Na travessa do Chafariz de El-Rei deixaram-me fotografar um cantinho de uma outra casa de fado que há por ali e que acabava de abrir porque “ontem fechámos às três da manhã”.



Continuei a descer pela Rua da Judiaria até ao Arco do Rosário onde está a restaurada Fonte do Poeta. Na parede à esquerda da fonte está gravado um poema de António Boto que acaba assim:


Anoiteceu. Ninguém só a voz dela


Só essa voz…ao longe num desmaio


O timbre vivo e pálido de um grito


Levantei-me. Deixei-a. Tristemente


Acendeu-se uma estrela no infinito.


Estar naquele beco, só eu e a força deste poema, é uma daquelas situações que melhor exprimem o prazer que retiro destes pequenos passeios solitários e que não é fácil explicar. Imagino que seja uma coisa parecida com o que se retira do ioga ou da meditação – algo que devolve a quem o pratica um bocado do equilíbrio que a rotina vai roubando.



O meu caminho continuou em direcção à Rua de S. Miguel que vai dar à igreja desse santo e que fica no largo também de S. Miguel, tal como as escadinhas onde comecei a minha subida em direcção às Portas do Sol onde não cheguei, tendo começado a minha descida junto ao pequeníssimo jardim de Sta. Helena.


Neste percurso encontrei uma verdadeira aldeia dentro da cidade, onde as pessoas se conhecem, onde as portas estão abertas, onde não passam carros, onde sai música (fado, claro) das janelas das casas, onde estão velhotas sentadas e que me dão os bons dias quando passo. Há lavadouros públicos, no Pátio do Prior, associações de locais como a centenária Sociedade da Boa-União, fundada no primeiro de Janeiro de 1870 (uma das melhores decisões de ano novo alguma vez tomada – e concretizada) e balneários públicos, já perto da Rua de S. Miguel que reencontrei quase no fim da minha descida.



A Rua da Regueira levou-me até ao fim da descida ou seja, até ao Largo do Chafariz de Dentro, onde está o Museu do Fado. A partir daí segui paralelamente ao rio de em direcção ao Terreiro do Paço que agora estava sob uma luz mais pálida, efeito das nuvens que tinham decidido, entretanto, aparecer.


Já no carro, ainda tive oportunidade de atrapalhar o trânsito na Rua do Instituto Virgílio Machado. Não pude deixar de parar para fotografar uma homenagem a Saramago que alguém decidiu pintar numa parede. Antes de regressar ao sítio onde me esperavam.


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