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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

De volta a Lisboa

Estive três semanas fora de Lisboa e já me fazia falta ir para a rua fotografar. Por isso, no Sábado acordei muito cedo e, sem plano definido, levei o carro até ao Saldanha. Estacionei no início da Avenida Praia da Vitória, no seu troço nascente, e fui tomar o pequeno-almoço à Pastelaria Belinha de onde saí não só com o apetite satisfeito, mas também com o ego massajado pelo quase imperceptível aceno de aprovação do dono do estabelecimento quando escolhi um papo-seco para a minha sandes de fiambre. Finalmente encontrei alguém que parece partilhar da minha opinião sobre a inutilidade de ter trinta e sete tipos de pão diferente.
Segui pela avenida abaixo, ainda adormecida, até à Rua de D. Estefânia protegida por um denso arvoredo que, como num túnel, realçava ao fundo a luz do Largo com o mesmo nome. Antes de lá chegar, cortei à esquerda na Praça da Ilha do Faial subindo a Rua de Ponta Delgada e depois desci a Rua da Ilha do Pico (é mesmo verdade, a toponímia ali é dominada pela região autónoma, felizmente da menos politicamente incorrecta nos dias que correm), até à Pascoal de Melo.







Não fui muitas vezes ao Jardim Constantino, que fica a meio da Pascoal de Melo, e nunca lhe achei muita piada mas, neste Sábado, detive-me por ali um pouco, o que só serviu para deteriorar ainda mais a minha opinião sobre o jardim. Entre o parque infantil vedado por grades da câmara, as mesas ocupadas por sem-abrigo, um prédio em ruínas - do lado da Calçada de Arroios - e uma casas de banho engraçadas mas com um cheiro que me manteve afastado quase apetece sugerir que o jardim seja soterrado e construído de novo.


Segui pela Passos Manuel, até à Rua Jacinta Marto, numa curiosa viagem no tempo, até à época em que os números de telefone tinham só cinco dígitos, as varandas se enchiam de canteiros e os restaurantes tinham cortinas frondosas de folhos suspensos num estilo que não consegui decidir se é do velho oeste ou parisiense antigo. Enfim, cortinas não são o meu forte…


Apanhei a Rua de Santa Bárbara, com um pequeno desvio pelas casas decrépitas do Beco do Félix, tendo voltado a descer para encontrar a Almirante Reis e passar pela Rua dos Anjos e o Beco do Borralho abaixo do qual vi, infelizmente só pelo seu exterior, a sóbria (excepto no nome) mas bonita Capela de Nossa Senhora do Resgate das Almas e do Senhor Jesus dos Perdidos, erigida em 1762.




Deixei esta zona rapidamente para trás, para chegar à Rua do Forno do Tijolo. A esta hora a cidade já estava mais acordada, com as pessoas a circularem entre os cafés, as mercearias, as papelarias e outros pequenos comércios que existem e dão vida a esta rua. A azáfama cresce na Rua Angelina Vidal porque aos habitantes juntam-se os forasteiros em busca da Graça e do Castelo, a maioria de eléctrico, que a subida é pronunciada, mas alguns a pé, como eu. No cimo desta rua está uma fantástica pintura de um vagabundo, num pequeno terreiro de onde se tem uma vista agradável, pelo que parei ali por uns minutos antes de virar para a Graça.




Na Rua da Graça o movimento de carros, pessoas, eléctricos era tremendo. Parei para fotografar um painel de azulejos na parede de um albergue para imigrantes da AMI, ocasião para estar um pouco à conversa com dois casais, já com alguma idade, que aproveitavam a sombra do arvoredo. Queixavam-se do apoio que é dado aos que vêm de fora e que falta aos que sempre cá viveram; falaram de dois carteiristas romenos que tinham acabado de ver a entrar no eléctrico 28. Achei que não valia muito a pena trazer para a conversa o contributo para as suas reformas dos que chegam a Portugal à procura de trabalho, nem que isso (trabalho) é só o que procuram a maioria dos que para cá vêm.
Antes de chegar ao miradouro da Graça, andei por ruelas laterais ao Largo da Graça, onde tive a oportunidade de fotografar um mural fantástico, no Beco dos Peixinhos…
…e uma pequeníssima Travessa do Monte onde cabe um talho, uma mercearia, um barbeiro e que dá para a Calçada do Monte, onde realmente invejei que tem a sorte de ali morar.


Voltei ao Largo da Graça que percorri rapidamente à procura da Igreja. Na verdade o que queria mesmo era a esplanada no miradouro em frente à igreja, para ter um pouco de descanso e de sombra que a caminhada já ia longa e a temperatura era bastante alta.




Estive por ali um bom bocado. Tive a sorte de estar um duo de guitarra e voz a interpretar canções espanholas de andamento muito lento, canções sobre as quais adivinhei a ascendência árabe e que eram perfeitas para aquele sítio e ocasião.
Enquanto estava na esplanada chegaram um homem e uma mulher perto dos 40, cada um acompanhado pelo respectivo filho que apresentaram mutuamente. A seguir às apresentações fez-se um silêncio que senti que os embaraçava quando ele o interrompeu para sugerir às crianças irem tomar um café. Fiquei com a impressão que eram um casal e que naquele Sábado tinham decidido dar um passo importante, e difícil, na sua relação. Que estavam a ali a arriscar o que de mais importante tinham, o que todos temos, – a relação com os nossos filhos – numa nova aposta de felicidade, em certo sentido, num recomeço de vida.


Tive pena de não os fotografar. Haviam ali expressões irrepetíveis. Em vez disso, resolvi apontar a objectiva para os sítios de Lisboa onde o Turista em Casa já entrou e que estavam ali à frente, em modo panorâmico:
a outra margem,
a Estrela,
o Bairro Alto,
As Amoreiras e
a Avenida da Liberdade.
São sítios que fomos ver e fotografar porque, como a Susana escreveu uma vez, temos uma paixão por Lisboa e pela fotografia que a isso nos impele. Confesso que tenho por vezes “crises de fé”, alturas em que já não sei bem onde ir buscar as imagens e impressões que aqui partilhamos. Mas depois há momentos e locais, como este, que me levam a retomar a prática desta paixão, deste namoro com Lisboa. Sei que forço a analogia, mas é um pouco como o casal da esplanada, que deitou a descrença passada às malvas e arranjou ali, na Graça, coragem para arriscar um passo importante para um recomeço. Não sei como é que vai acabar a história do casal, mas sei que as suas hipóteses são bastante melhores só por terem escolhido este sítio para o fazer.
Estava na hora de regressar e, longe do Saldanha como estava, decidi descer até ao Martim Moniz para apanhar o Metro. Neste percurso, feito com o sol já bem alto, beneficiei da luz inigualável de Lisboa, no que foi o último Sábado deste Verão. O calor não me incomodou, ou porque o trajecto era quase todo a descer ou por causa do reforço de ânimo na Graça e segui, primeiro pela Rua da Voz do Operário, e depois pela Rua de S. Vicente a partir de onde me embrenhei em ruas mais pequenas, até chegar à Calçada de Santo André e finalmente à rua dos Cavaleiros que me levou ao meu destino. É bom de estar de volta a Lisboa!






domingo, 22 de maio de 2011

O Metro a P&B

O transporte mais rápido dentro das cidades é o metropolitano. O facto de circular por baixo do chão torna-o a opção menos apetecível para os visitantes, que o preterem quando têm ao seu dispor alternativas que juntam o útil (levá-los de um lado para o outro) ao agradável (permitir que se aprecie a cidade que estão a visitar). Lisboa não é excepção. O Metro é a escolha ideal para quem tem de fazer no mais curto espaço de tempo o caminho entre casa e o trabalho ou a escola, mas perde em encanto para quem visita a cidade quando existem alternativas como por exemplo o eléctrico. Mas o facto é que esta cidade, nos últimos anos, ao mesmo tempo que procedeu ao alargamento da sua rede de Metropolitano, também reformou algumas das suas estações, com resultados bastantes interessantes, e que tornam esta opção de transporte mais atraente mesmo para quem esteja na cidade enquanto turista.


Dediquei os dois últimos Sábados a captar imagens de algumas das estações que valem a pena visitar. Por não ser um utente assíduo do metro não conheço bem toda a rede. Há estações onde nunca entrei (e outras onde entrei agora pela primeira vez) - a rede é agora bastante mais extensa do que nos meus tempos de faculdade, quando usava este transporte diariamente – o que provavelmente faz com que tenha falhado as estações mais bonitas. O meu itinerário resulta de uma mistura entre o improviso (parava onde o comboio me levava) e o planeamento (onde pessoas com quem partilhei os meus planos me aconselharam a ir).





Outro ponto prévio ao relato deste passeio tem a ver com a escolha pelas fotos a preto e branco, que não resultam de tratamento posterior das imagens captadas (quem me conhece sabe que não tenho grande paciência para isso), mas antes com uma decisão tomada à partida, e que quase mantive em todo o percurso como à frente se verá, por achar que faz algum sentido no ambiente subterrâneo.


A estação do Cais do Sodré é uma daquelas que não existiam quando eu era cliente assíduo do Metro. Foi inaugurada em 1998 e faz a ligação com a linha do Estoril. O calor daquela manhã de Sábado justificava a grande quantidade de pessoas vestidas para a praia que enchiam a estação e cuja atitude contrastava com a do célebre e apressado coelho do País das Maravilhas, que decora as paredes da estação.




A estação do Terreiro do Paço é das mais recentes do Metro de Lisboa. Este foi o único sítio onde me desviei do plano de manter as imagens a preto e branco, por causa do painel de azulejos que está no átrio central da estação e que, por estar a uma distância razoável do observador, espaço apenas ocupado por traves de betão, provoca um contraste entre o colorido do painel e o monocromático natural da sua envolvente, o que me sugeriu esta fotografia.



Também andei pela Estação da Baixa-Chiado, onde a decoração é menos elaborada, e pela de Santa Apolónia onde existe um painel de azulejos em homenagem aos ferroviários mas que não consegui fotografar decentemente. Ainda assim, a opção pelo P&B, algumas experiências com a velocidade e a sobreexposição e ainda o grão trazido por uma definição de sensibilidade excessiva, produziram algumas imagens que me agradam embora saiba que é um gosto discutível.








Na estação dos Restauradores destaco os seis fabulosos painéis de azulejos de Nadir Afonso que, de uma forma bastante estilizada, representam as cidades de Paris, Londres, Madrid, Rio de Janeiro, Moscovo e Nova Iorque. A escolha pelo monocromático não lhes faz justiça, aconselhando uma revisita em modo colorido.





Onde é obrigatório voltar para fotografar a cores é à estação do Parque, a minha preferida entre as que visitei. A decoração divide-se por dois temas: A Declaração Universal dos Direitos do Homem que está inscrita em todo o arco do tecto da estação e os Descobrimentos que inspiram as paredes, não só nos motivos dos azulejos mas também nas esculturas que só consigo descrever como algo semelhante a totens índios.



A estação do Saldanha, na parte da linha vermelha, foi a que me causou maior estranheza entre aquelas por onde passei. Está coberta de azulejos brancos, onde se inscreveram algumas frases aparentemente extraídas de textos literários, cujo sentido muitas vezes me escapa. Essa ininteligibilidade das frases e o branco das paredes que as expõem dariam àquele lugar um ar de asilo mental, não fosse pelo movimento das pessoas e comboios que mitiga esse efeito. Mais tarde descobri que as frases são da autoria de Almada Negreiros, de quem são também os desenhos que completam a decoração da estação. Prefiro-os. Apesar de também serem de difícil interpretação, em virtude daquele traço fino e vago que lhe é característico, valorizam a estética do sítio.





Aproveitei o facto de estar na linha vermelha para ir conhecer a estação das Olaias, que me tinham aconselhado entusiasticamente. Tem uma dimensão brutal, com um pé direito de, pelo menos 15 metros e, a suportar aquela nave enorme, dezenas de colunas metálicas de ambos os lados da linha com mais de um metro de diâmetro, pontuadas com grandes rebites o que dá à estação um ar de pavilhão industrial. Tem as paredes decoradas com uma espécie de mosaico colorido que ali parece deslocado. Em direcção ao átrio central estão paredes cobertas com mosaicos moldados com mãos de crianças e algo que se assemelha a barcos pendurados no tecto de onde emana uma luz amarela e que confirma a falta de harmonia entre os vários elementos escolhidos para decorar a estação.







Ficaram por ver muitas outras estações, entre as que conheço e gosto (lembro-me do Campo Pequeno ou da Cidade Universitária, por exemplo) e as que ainda não conheço. Também ficou a vontade de regressar a algumas das aqui referidas para experimentar outro tipo de imagens. Ficou sobretudo a ideia de que foi feito um excelente trabalho em dar às estações de metro de Lisboa uma estética capaz de fazer esquecer aos seus utilizadores o facto de estarem sob o solo, fazendo delas as mais interessantes entre as que tenho visto em várias cidades da Europa.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Grafitis de Lisboa

O expediente é conhecido e de uso generalizado: quando às bandas de música lhes falta material para editar lançam uma colectânea ou um álbum gravado ao vivo. Também os canais de televisão usam um recurso parecido, em particular no Verão quando, antes de terem prontos (ou comprados) os novos programas se dedicam a exibir reposições de sucessos do passado.






















Eu sei que o blog é demasiado recente para isto mas alguma falta de tempo, de imaginação e de disponibilidade para saídas fotográficas, levaram-me a juntar algumas fotos de alguns passeios por Lisboa sobre um tema a que acho bastante piada: os grafitis (o corrector acusa um erro ortográfico mas o nome aportuguesado parece-me um bocado parolo).
Um pouco por todo o lado se encontram pinturas nas paredes. A maior parte são os abomináveis tags, assinaturas ilegíveis de tipos que presumo quererem exibir o seu recém-adquirido domínio da escrita, tal como as crianças que exibem a sua obra, orgulhosas por começar a usar o bacio.



Felizmente há tipos talentosos a ocupar as paredes de Lisboa e que, mesmo quando querem fazer passar uma mensagem, política, filosófica ou doutra natureza, o fazem com resultados bastante interessantes.






















E esse talento é mais bem sucedido na passagem dessa mensagem do que aquelas pinturas, que me habituei a ver desde miúdo, de frases a escorrer tinta (os sprays não estavam muito difundidos) a mandar Reagan para casa, a chamar caloteiro a Sá Carneiro ou a apelar a uma qualquer greve e em que frequentemente os S’s ou os N’s apareciam mal escritos.

Se esquecermos a praga dos tags, julgo que é seguro dizer que Lisboa tem evoluído muito em termos de pinturas murais.


Depois há verdadeiras obras de arte, como estas fachadas no Saldanha…


…ou as destes 3 prédios na Fontes Pereira de Melo.


Comecei por dizer que esta é uma colectânea um bocadinho de recurso em tempo de vacas magras mas o tema é bastante do meu agrado e, tal como os músicos em crise de inspiração (e financeira), voltarei a ele sempre que tiver material que o justifique.

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