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sábado, 22 de setembro de 2012

Selva Urbana

A trinta de junho fiz a última incursão pela minha Lisboa, antes de um interregno de mais de dois meses e meio preenchidos por parto, choros, fraldas e seu conteúdo e tudo aquilo que vem no pacote com um novo bebé. Queria ter-vos deixado este relato há mais tempo, mas as poucas horas que tenho dormido têm-me tirado a vontade e a inspiração para escrever (e ter tirado mais de seiscentas fotografias também não foi grande ajuda...). Mas esta foi uma boa noite, por isso cá estou eu, com a história da nossa visita ao jardim zoológico, onde já não ia há uns quatro anos. Aproveitámos o bom tempo e a temperatura amena que se fazia sentir então e passámos a manhã e o início da tarde naquele pequeno pedaço de selva plantado em Sete Rios.

Os meus sentimentos em relação ao jardim zoológico foram mistos durante muitos anos: não me fazia sentido ter animais selvagens aprisionados, nem sempre nas melhores condições, e o estado em que esteve o nosso zoo durante muitos anos motivava esse desconforto. No entanto, tinha boas recordações das visitas da infância, pelo que nunca consegui realmente extremar a minha posição em relação a este assunto. O que é certo é que, com o passar dos anos, foi-se tornando clara a importância dos zoos deste mundo na preservação de algumas espécies e, nalguns casos mesmo, na reintrodução nos seus habitats. Houve um grande esforço de requalificação do nosso jardim zoológico, ajudado pelo aumento do preço dos bilhetes e pelo esquema de apadrinhamento dos animais que foi posto em marcha. E os resultados estão à vista: hoje o zoo é um óptimo sítio para passar o dia, com ou sem miúdos.


No zoo conseguimos estar a poucos passos de animais como estes (com um vidro de permeio, obviamente)...


... caminhar ao lado de outros muito cheios de si...


... ou de famílias parecidas com as nossas...


... e assistir a algo tão espectacular como este rapaz, supostamente tímido, a alimentar-se sem qualquer ponta de vergonha ou recato.


Podemos igualmente sobrevoar todo o jardim no teleférico, mesmo que isso implique algumas vertigens...


... largamente compensadas pelas vistas...



... e apesar de alguns calafrios por passar por cima dos leões.


Segue-se uma das minhas zonas favoritas do zoo, o reptilário. Um gosto nada consensual, bem sei, mas sempre tive um fascínio enorme por répteis e há poucos sítios onde possam ser vistos tão de perto... apesar de muitas vezes estarem bem camuflados... 



... e até conseguimos ver um verdadeiro dragão...


Toda a envolvente do parque está muito arranjada e acolhedora, um óptimo sítio para descansar, sobretudo quando se está com uma barriga de mais de oito meses.


As girafas são sempre um favorito. Facilmente se percebe porquê, não me lembro de um animal com uma cara mais simpática...



Haja tempo e pernas e ainda há muitos animais para ver...


... alguns deles recém-chegados ao nosso mundo.


Quanto aos nossos parentes afastados... são às dezenas.



 

E agora, para além da aldeia dos macacos que marcou as visitas de infância de muitos de nós e que ainda conta com alguns habitantes...


... há o templo dos primatas, que representa um upgrade significativo...  



Para terminar a nossa visita, assistimos ao espectáculo da Baía dos Golfinhos, onde para além dos ditos cujos, há também as habilidades dos leões marinhos.


É realmente impressionante a confiança entre animais e tratadores...


Mesmo para quem como eu não gosta de espectáculos com animais, há que admitir que este vale a pena.





E assim chegou ao fim o nosso passeio e terminou um dia em cheio. Vale a pena aproveitar os últimos dias de bom tempo e ir ao zoo. 


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Fui Bugiar

O Bugio é um dos monumentos mais enigmáticos de Lisboa. Omnipresente e ignorado é, por isso mesmo, um dos que sempre me suscitou a curiosidade, ampliada pela distância a que está da costa que não deixa perceber o seu real tamanho, a sua forma, a sua função. A razão de existir.
Há dias tive a oportunidade de satisfazer essa curiosidade.


Sob um céu azul fabuloso (tão singular que devia ter um nome próprio, talvez Azul-Lisboa) fizemo-nos ao mar a bordo do semi-rígido que em cinco emocionantes minutos nos levou até perto do Bugio. A entrada para o forte faz-se por uma pequena porta que nos leva ao primeiro nível do edifício, uma base larga de pedra branca sobre a qual assenta a muralha interior, o verdadeiro forte.
Pela porta da muralha interior acede-se a uma pequena câmara onde se começa a suspeitar do abandono a que tem estado condenado o forte do Bugio. O seu interior tem várias dependências, espaços destinados à guarnição militar, aos víveres, ao azeite (o combustível que se usava), à oração – o estado a que se deixou chegar a pequena capela é confrangedor  - e, mais tarde, aos alojamentos dos faroleiros e suas famílias. Uns pequenos tê-zero duplex, um dos quais com o privilégio de uma fabulosa vista de mar.  

No centro da circunferência formada pela muralha está a cisterna para a água potável, o bem mais precioso para a guarnição por ser o mais difícil de transportar. A cisterna é a base da torre do farol, ligada à muralha por quatro arcos que lhe auxiliam o equilíbrio e, no piso superior (o topo das muralhas), permitem o acesso ao farol propriamente dito.  



É um edifício fascinante. Uma nau de pedra erigida para defender a barra das armadas inimigas, construída para albergar os canhões que cruzariam o seu tiro com as fortificações da linha de Cascais. Uma fortaleza inexpugnável que da única vez em que foi posta à prova falhou rotundamente o teste a demonstrar a honrosa inépcia deste povo para as artes da guerra.


A minha oportunidade de o conhecer – e de ouvir as suas estórias – foi-me dada pela Associação Espaço e Memória e por Joaquim Boiça, filho de um dos últimos faroleiros do Bugio e historiador apaixonado pela sua terra, pela arquitectura militar e pelo farol que conheceu quando aqui havia vida. Uma vida que ficou suspensa neste (mais um) sítio que está deixado ao abandono e que podia, como poucos outros, contar as histórias do século de ouro português. Não o faz porque as autoridades que o superintendem não se entendem, mantendo essa história ao largo das pessoas que as querem conhecer.  

domingo, 8 de julho de 2012

Sara (ou o que sei do Jardim Botânico)

Aquele jardim foi o nosso recanto durante a tarde, durante as tardes daquele mês de Maio. Já não me lembro do ano nem interessa, foi em Maio.
Num jardim que foi criado para formar botânicos, íamos lá para aprender anatomia. A das bocas que não se largavam, das línguas que se entretinham e tentavam distrair a atenção das mãos que exploravam o outro corpo, as coxas, os seios, as ancas, eu sei lá…
Não era anatomia que aprendíamos. Era a amar. Nas tardes sem aulas (e às vezes em vez das aulas), íamos ensinar-nos aquilo que mais ninguém nos ensinava. Lições que ainda hoje sei, ao contrário das outras, as da manhã, passadas a ansiar que acabassem, a ansiar por ti.
Nunca esqueci o dia em que decidiste acabar com as nossas tardes. Do dia em que aprendi que nunca se é suficientemente crescido para não chorar, o primeiro dia em que não te acompanhei até à paragem do eléctrico que te levava a casa.
O primeiro dia em que saí do jardim sozinho, para nunca mais lá voltar durante quase vinte e cinco anos.
Até hoje…








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