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domingo, 24 de abril de 2011
De Belém a Alcântara
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Alfama pela manhã
- Bom dia. Posso tirar fotografias? – Disse eu ao entrar na loja de conservas.
A senhora da loja saiu do pequeno escritório atrás do balcão, olhou para mim e, ainda meio hesitante, anuiu ao meu pedido.
- A loja é muito antiga? – Perguntei, enquanto fotografava, por estranhar o ar muito cuidado do recheio da loja que contrasta com a rustiquez das paredes.
- Se achar que oitenta anos é ser antigo… - respondeu-me a senhora num tom pouco paciente.
- O senhor se calhar não sabe o que está a fotografar…
- Não – respondi. Aqui fui eu que hesitei. A resposta óbvia – uma loja de conservas – não me pareceu adequada. Escolhi a deixa que julguei ser a que a senhora procurava para me contar um pouco da história daquele sítio. Enganei-me.
- Se calhar já chega de fotografias… - rematou a senhora, arrumando ali as minhas esperanças. Agradeci e fui-me embora.
Foi assim que começou o meu passeio na manhã do último sábado. A loja é a Conserveira de Lisboa, está na Rua dos Bacalhoeiros desde 1930 e é imperdível. Tem conservas de peixes e mariscos, expostas de forma irrepreensível em prateleiras e balcões à antiga. E até aposto que o atendimento é simpático e competente. O que aconteceu comigo foi incidental e, bem vistas as coisas, eu não era um cliente.
Na verdade o passeio começou um bocado antes, no Terreiro do Paço, com o pequeno-almoço no Martinho da Arcada. Um dos poucos vícios burgueses que tenho é gostar de comer fora a primeira refeição do dia e ter a oportunidade de o fazer por baixo daquelas arcadas, quando Lisboa começa a acordar, não se deve desperdiçar.
Depois de sair da Conserveira segui a Rua dos Bacalhoeiros com a intenção de ir até ao seu final, ao encontro da Rua da Alfândega e em direcção a Santa Apolónia, pela zona ribeirinha. Esse plano foi completamente alterado quando me deparei com um arco escuro a que decidiram chamar, e bem, Arco Escuro e que nos conduz ao beco com o mesmo nome.
A partir daí embrenhei-me no sossego das ruas que me conduziram até à Sé – As escadinhas das Portas do Mar, a Rua das Canastras, a Rua Afonso de Albuquerque e a Travessa do Almargem que se sobe para chegar às Cruzes da Sé. Andei por ali a fotografar as laranjeiras que ornamentam a calçada junto à Sé, até perto do Beco da Caridade. Aí voltei para trás, apanhando a Rua de S. João da Praça para entrar na terra do fado, Alfama. A marcar a fronteira de entrada nessa terra está uma inesperada conquista – um placar numa parede do Largo do Marquês do Lavradio a anunciar uma casa de Fado chamada Marquês da Sé – casa onde há muitas luas se podiam ouvir bandas de música pop e rock que davam os primeiros passos.
Na travessa do Chafariz de El-Rei deixaram-me fotografar um cantinho de uma outra casa de fado que há por ali e que acabava de abrir porque “ontem fechámos às três da manhã”.
Continuei a descer pela Rua da Judiaria até ao Arco do Rosário onde está a restaurada Fonte do Poeta. Na parede à esquerda da fonte está gravado um poema de António Boto que acaba assim:
Anoiteceu. Ninguém só a voz dela
Só essa voz…ao longe num desmaio
O timbre vivo e pálido de um grito
Levantei-me. Deixei-a. Tristemente
Acendeu-se uma estrela no infinito.
Estar naquele beco, só eu e a força deste poema, é uma daquelas situações que melhor exprimem o prazer que retiro destes pequenos passeios solitários e que não é fácil explicar. Imagino que seja uma coisa parecida com o que se retira do ioga ou da meditação – algo que devolve a quem o pratica um bocado do equilíbrio que a rotina vai roubando.
O meu caminho continuou em direcção à Rua de S. Miguel que vai dar à igreja desse santo e que fica no largo também de S. Miguel, tal como as escadinhas onde comecei a minha subida em direcção às Portas do Sol onde não cheguei, tendo começado a minha descida junto ao pequeníssimo jardim de Sta. Helena.
Neste percurso encontrei uma verdadeira aldeia dentro da cidade, onde as pessoas se conhecem, onde as portas estão abertas, onde não passam carros, onde sai música (fado, claro) das janelas das casas, onde estão velhotas sentadas e que me dão os bons dias quando passo. Há lavadouros públicos, no Pátio do Prior, associações de locais como a centenária Sociedade da Boa-União, fundada no primeiro de Janeiro de 1870 (uma das melhores decisões de ano novo alguma vez tomada – e concretizada) e balneários públicos, já perto da Rua de S. Miguel que reencontrei quase no fim da minha descida.
A Rua da Regueira levou-me até ao fim da descida ou seja, até ao Largo do Chafariz de Dentro, onde está o Museu do Fado. A partir daí segui paralelamente ao rio de em direcção ao Terreiro do Paço que agora estava sob uma luz mais pálida, efeito das nuvens que tinham decidido, entretanto, aparecer.
Já no carro, ainda tive oportunidade de atrapalhar o trânsito na Rua do Instituto Virgílio Machado. Não pude deixar de parar para fotografar uma homenagem a Saramago que alguém decidiu pintar numa parede. Antes de regressar ao sítio onde me esperavam.
sábado, 26 de março de 2011
Praças tristes e bairros alegres
A volta que fiz ontem começou na Praça da Alegria. Não a fotografei porque é bonita mas ingrata. Estamos de relações cortadas: Deixou o Manuel João sair do Maxime e isso deixa-me chateado. Virei-lhe rapidamente as costas e, sem olhar para trás, segui pela Rua da Alegria em direcção à Calçada da Glória que comecei a subir mas não até ao fim. A promessa de paredes cobertas de graffiti levou-me a cortar à direita até à Travessa do Fala-Só.
Cortei à esquerda, ao reencontro da Glória e deparei-me com pintores de graffiti a trabalhar em plena luz do dia. A estupefacção durou pouco tempo. Apenas o necessário para perceber que não estavam a pintar paredes mas antes uma espécie de tapumes lá colocados para esse efeito.

E os trabalhos que ali estão são incríveis. Os tapumes, muitos com focos de luz para permitir a exibição nocturna, foram colocados pela câmara municipal, numa iniciativa que se louva.

Segui até ao miradouro de S. Pedro de Alcântara, bastante concorrido não só por quem andava à procura de sítio para apanhar o melhor boneco da baixa lisboeta mas também pelos que aproveitavam a promessa cumprida pela meteorologia de “boas abertas”, enchendo a esplanada do jardim para tomar um copo enquanto se lê um livro ou põe a conversa em dia.E este é um dos melhores sítios de Lisboa para se assistir ao espectacular fim de tarde, de costas voltadas para a azáfama do trânsito na rua que tem o mesmo do nome do miradouro.
O sol andava um bocado envergonhado (como disse atrás só aparecia em algumas boas abertas), dando ao casario da baixa e da colina do castelo aquele tom que faz lembrar aquele que as páginas dos livros adquirem com o passar dos anos. Junte-se o cinzento azulado que o rio adquire nestes dias e temos lisboa num dos seus melhores momentos. É só disparar.
Deixei S. Pedro de Alcântara para trás e deambulei pelo Bairro Alto onde reencontrei alguns dos sítios onde já não entro há demasiado tempo e que despertavam do sono diurno, preparando-se para a noite que lhes sustenta a existência.
Estivemos um bocado na conversa, acompanhada por umas cervejinhas, até começarem a chegar os primeiros clientes que tinham marcado uma experiência de degustação. Paguei o vinho que o Alexandre me aconselhou – a Pérola tem uma oferta variada mas especializou-se em vinhos de qualidade de pequenos produtores quase desconhecidos – despedi-me e saí, regressando às ruas do Bairro que se começava a agitar e de que tenho saudades, assunto que terei de resolver em breve.
terça-feira, 15 de março de 2011
Por outro lado...



















