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domingo, 23 de outubro de 2011

Centro Comercial?

Nos últimos anos, o nosso país encheu-se de centros comerciais. Não de pequenos centros como havia antigamante, mas de monstruosos edifícios com vários andares, onde encontramos (quase) sempre as mesmas cadeias de lojas, os mesmos serviços, os mesmos filmes nas salas de cinema, os mesmos restaurantes. Espaços convenientes, não contesto isso, pois rapidamente podemos encontrar uma série de coisas de que precisamos (ou, muito provavelmente, de que não precisamos, mas enfim...) a dois passos umas das outras e num curto espaço de tempo. Espaços onde podemos passar um dia inteiro se assim nos aprouver, entre o almoço padronizado, a camisola barata feita na China que ainda está mais barata porque está em promoção, os livros, CDs, DVDs e afins que chamam por nós no antro da perdição (aka Fnac), o filme no cinema do chão peganhento, o vaguear pelos corredores a ver as modas, o hipermercado, e por aí em diante. Espaços onde famílias inteiras passam os seus fins-de-semana, mesmo quando o sol brilha no céu e as crianças poderiam estar a brincar ao ar livre. Não gosto de centros comerciais. Reconheço a sua utilidade e vou lá quando necessito, por isso não tenho legitimidade para criticar a sua existência, mas confesso que ao fim de algum tempo de lá estar, começo a sentir uma vontade enorme de fugir dali. Por isso evito-os tanto quanto me é possível. 

Para além disso, há muita coisa que não se encontra nos centros comerciais, sendo a principal o amor às coisas bem feitas. O amor ao que se vende, ao que se ofereçe, a palavra amiga, a proximidade com o cliente. Ontem fui à Baixa para mostrar algumas lojas antigas à minha filha, lojas onde, entre outras coisas que não há nos centros comerciais, se encontra isso também. Não sei se estas pequenas lojas conseguirão sobreviver nos próximos anos - dói a alma ver tantas e tantas que já fecharam portas -, mesmo aquelas que ali estão há cinquenta, há cem ou há ainda mais anos. Algumas conseguiram reinventar-se, outras dificilmente sobrevivem aos senhores do parágrafo de cima e às grandes cadeias que também andam por ali. Ainda assim, enche-me o coração de esperança ver que, apesar de tudo, há algumas que, sendo recentes, tentam recuperar os padrões antigos de simpatia, atendimento, diferenciação e qualidade, promovendo o que é nosso, o que é português e o que ainda resta no nosso imaginário colectivo.


Começámos o nosso passeio pelo Chiado. As fotografias que tirei à Bertrand não fazem juz à sua beleza, por isso não as ponho aqui, mesmo sabendo que este relato ficará por isso incompleto. Mas prometo voltar a este tema em breve... 

As lojas do Chiado, pelo menos as das suas ruas principais, parecem de algum modo ter mais hipóteses de sobreviver ao que aí virá pelo número esmagador de turistas que se encontra em qualquer dia, a qualquer hora por estas bandas. Ou talvez não...


Uma das minhas preferidas é a Casa Pereira, uma das poucas lojas de cafés, chás, chocolates e afins que ainda subsistem em Lisboa. O cheiro destas lojas é inigualável e está entre os meus favoritos: o aroma divinal dos grãos de café, misturado com a docura dos chocolates e o cheiro das folhas de chá. Comprei uns bombons com creme Regina, os que eu mais gostava em criança, e um pouco de Chá de Natal para as tardes de inverno. Falei com os empregados sobre o negócio e a crise e a minha filha recebeu festas de simpatia e uma joaninha de chocolate para experimentar.


Descemos para a Baixa e, rapidamente, entrámos no mar de gente da Rua Augusta. Sempre que por lá passo, fico com saudades dos primeiros anos de faculdade, em que a atravessava todos os dias para ir para o barco no Terreiro do Paço, e de um dos meus primeiros empregos, que era por aquelas bandas e que deixava toda aquela zona por minha conta à hora do almoço.


Casas de carimbos, de sedas e tecidos, de artesanato para turista ver, de artesanato para português ver, de artes decorativas... 




... e as esplanadas, onde eu adorava sentar-me a escrever e a apreciar as vidas que se desenrolavam à minha volta.


Mas muitas das lojas que valem realmente a pena estão nas paralelas e perpendiculares à rua Augusta. Drogarias e perfumarias à antiga, que vendem detergentes, sabonetes, vernizes e essências; lojas de tapetes e tapeçarias, lojas de candeeiros, de atoalhados, de tachos, panelas e facas, alfaiates, costureiras, garrafeiras, retrosarias repletas de lãs, galões e botões... e poucos clientes. Muito poucos...


Vai havendo excepções, como a ervanária Rosil, que ainda não conhecia e onde fui comprar alfazema da melhor que há, menina, só a flor, que esta aqui nem faz pó. Os empregados são de uma simpatia ímpar, e lá recebi uma explicação gratuita sobre ervas e os seus benefícios, num espaço imaculadamente arranjado, com duas lojas quase paralelas (fui à pequena, só depois vi a grande) e uma enorme variedade de chás de ervas várias, quase a roçar a mezinha, preparados e embalados na loja e que ostentam orgulhosamente o seu nome, os seus benefícios e a sua composição. E que, pelo que percebi, continuam a vender bem.


Fazer destes passeios com uma criança tem as suas limitações e cedo a pequena barriga começou a dar horas. A montra da Confeitaria Nacional tinha-lhe ficado debaixo do olho guloso e, como servem almoços simples no andar de cima, foi lá que parámos para descansar. A Confeitaria é belíssima, com os seus tectos trabalhados, chão de tábua corrida e uma decoração e arranjo sem igual. Isto já para não falar nos bolos. A não perder.


O almoço (e algumas dores nos pequenos pés) quebrou o ânimo infantil e a curiosidade para ver mais lojas antigas começou a diluir-se. Estava na hora de regressar... fomos então pela Rua da Betesga, cujo nome provocou sinceras gargalhadas, até ao Rossio, para subirmos para o Chiado pela Rua do Carmo. Apesar do tímido Outono, o cheiro a castanhas assadas já perfuma as ruas de Lisboa.



Na Rua do Carmo, ouvia-se fado como de costume, a sair das colunas instaladas no belo e já quase histórico calhambeque, que há tantos anos é o único carro que ali pode estar estacionado em permanência.


Destas coisas não vemos nós nos outros centros comerciais. Acho que todos temos pena quando vemos nas notícias que cada vez fecham mais lojas e que os centros das cidades estão cada vez mais desertos. Mas todos nós fomos responsáveis por isso e também passa por nós mudar essa realidade. O momento não é o melhor, é certo, porque todos teremos que nos habituar a comprar menos. Eu diria que se com isso nos habituarmos também  a comprar melhor, a pensar no que estamos a comprar, em como e onde foi feito e o que nos oferece quem está a vender, talvez haja ainda uma hipótese. Por isso, a vocês, nossos leitores, fica o apelo: se tiverem possibilidade, prefiram o comércio tradicional. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

De volta a Lisboa

Estive três semanas fora de Lisboa e já me fazia falta ir para a rua fotografar. Por isso, no Sábado acordei muito cedo e, sem plano definido, levei o carro até ao Saldanha. Estacionei no início da Avenida Praia da Vitória, no seu troço nascente, e fui tomar o pequeno-almoço à Pastelaria Belinha de onde saí não só com o apetite satisfeito, mas também com o ego massajado pelo quase imperceptível aceno de aprovação do dono do estabelecimento quando escolhi um papo-seco para a minha sandes de fiambre. Finalmente encontrei alguém que parece partilhar da minha opinião sobre a inutilidade de ter trinta e sete tipos de pão diferente.
Segui pela avenida abaixo, ainda adormecida, até à Rua de D. Estefânia protegida por um denso arvoredo que, como num túnel, realçava ao fundo a luz do Largo com o mesmo nome. Antes de lá chegar, cortei à esquerda na Praça da Ilha do Faial subindo a Rua de Ponta Delgada e depois desci a Rua da Ilha do Pico (é mesmo verdade, a toponímia ali é dominada pela região autónoma, felizmente da menos politicamente incorrecta nos dias que correm), até à Pascoal de Melo.







Não fui muitas vezes ao Jardim Constantino, que fica a meio da Pascoal de Melo, e nunca lhe achei muita piada mas, neste Sábado, detive-me por ali um pouco, o que só serviu para deteriorar ainda mais a minha opinião sobre o jardim. Entre o parque infantil vedado por grades da câmara, as mesas ocupadas por sem-abrigo, um prédio em ruínas - do lado da Calçada de Arroios - e uma casas de banho engraçadas mas com um cheiro que me manteve afastado quase apetece sugerir que o jardim seja soterrado e construído de novo.


Segui pela Passos Manuel, até à Rua Jacinta Marto, numa curiosa viagem no tempo, até à época em que os números de telefone tinham só cinco dígitos, as varandas se enchiam de canteiros e os restaurantes tinham cortinas frondosas de folhos suspensos num estilo que não consegui decidir se é do velho oeste ou parisiense antigo. Enfim, cortinas não são o meu forte…


Apanhei a Rua de Santa Bárbara, com um pequeno desvio pelas casas decrépitas do Beco do Félix, tendo voltado a descer para encontrar a Almirante Reis e passar pela Rua dos Anjos e o Beco do Borralho abaixo do qual vi, infelizmente só pelo seu exterior, a sóbria (excepto no nome) mas bonita Capela de Nossa Senhora do Resgate das Almas e do Senhor Jesus dos Perdidos, erigida em 1762.




Deixei esta zona rapidamente para trás, para chegar à Rua do Forno do Tijolo. A esta hora a cidade já estava mais acordada, com as pessoas a circularem entre os cafés, as mercearias, as papelarias e outros pequenos comércios que existem e dão vida a esta rua. A azáfama cresce na Rua Angelina Vidal porque aos habitantes juntam-se os forasteiros em busca da Graça e do Castelo, a maioria de eléctrico, que a subida é pronunciada, mas alguns a pé, como eu. No cimo desta rua está uma fantástica pintura de um vagabundo, num pequeno terreiro de onde se tem uma vista agradável, pelo que parei ali por uns minutos antes de virar para a Graça.




Na Rua da Graça o movimento de carros, pessoas, eléctricos era tremendo. Parei para fotografar um painel de azulejos na parede de um albergue para imigrantes da AMI, ocasião para estar um pouco à conversa com dois casais, já com alguma idade, que aproveitavam a sombra do arvoredo. Queixavam-se do apoio que é dado aos que vêm de fora e que falta aos que sempre cá viveram; falaram de dois carteiristas romenos que tinham acabado de ver a entrar no eléctrico 28. Achei que não valia muito a pena trazer para a conversa o contributo para as suas reformas dos que chegam a Portugal à procura de trabalho, nem que isso (trabalho) é só o que procuram a maioria dos que para cá vêm.
Antes de chegar ao miradouro da Graça, andei por ruelas laterais ao Largo da Graça, onde tive a oportunidade de fotografar um mural fantástico, no Beco dos Peixinhos…
…e uma pequeníssima Travessa do Monte onde cabe um talho, uma mercearia, um barbeiro e que dá para a Calçada do Monte, onde realmente invejei que tem a sorte de ali morar.


Voltei ao Largo da Graça que percorri rapidamente à procura da Igreja. Na verdade o que queria mesmo era a esplanada no miradouro em frente à igreja, para ter um pouco de descanso e de sombra que a caminhada já ia longa e a temperatura era bastante alta.




Estive por ali um bom bocado. Tive a sorte de estar um duo de guitarra e voz a interpretar canções espanholas de andamento muito lento, canções sobre as quais adivinhei a ascendência árabe e que eram perfeitas para aquele sítio e ocasião.
Enquanto estava na esplanada chegaram um homem e uma mulher perto dos 40, cada um acompanhado pelo respectivo filho que apresentaram mutuamente. A seguir às apresentações fez-se um silêncio que senti que os embaraçava quando ele o interrompeu para sugerir às crianças irem tomar um café. Fiquei com a impressão que eram um casal e que naquele Sábado tinham decidido dar um passo importante, e difícil, na sua relação. Que estavam a ali a arriscar o que de mais importante tinham, o que todos temos, – a relação com os nossos filhos – numa nova aposta de felicidade, em certo sentido, num recomeço de vida.


Tive pena de não os fotografar. Haviam ali expressões irrepetíveis. Em vez disso, resolvi apontar a objectiva para os sítios de Lisboa onde o Turista em Casa já entrou e que estavam ali à frente, em modo panorâmico:
a outra margem,
a Estrela,
o Bairro Alto,
As Amoreiras e
a Avenida da Liberdade.
São sítios que fomos ver e fotografar porque, como a Susana escreveu uma vez, temos uma paixão por Lisboa e pela fotografia que a isso nos impele. Confesso que tenho por vezes “crises de fé”, alturas em que já não sei bem onde ir buscar as imagens e impressões que aqui partilhamos. Mas depois há momentos e locais, como este, que me levam a retomar a prática desta paixão, deste namoro com Lisboa. Sei que forço a analogia, mas é um pouco como o casal da esplanada, que deitou a descrença passada às malvas e arranjou ali, na Graça, coragem para arriscar um passo importante para um recomeço. Não sei como é que vai acabar a história do casal, mas sei que as suas hipóteses são bastante melhores só por terem escolhido este sítio para o fazer.
Estava na hora de regressar e, longe do Saldanha como estava, decidi descer até ao Martim Moniz para apanhar o Metro. Neste percurso, feito com o sol já bem alto, beneficiei da luz inigualável de Lisboa, no que foi o último Sábado deste Verão. O calor não me incomodou, ou porque o trajecto era quase todo a descer ou por causa do reforço de ânimo na Graça e segui, primeiro pela Rua da Voz do Operário, e depois pela Rua de S. Vicente a partir de onde me embrenhei em ruas mais pequenas, até chegar à Calçada de Santo André e finalmente à rua dos Cavaleiros que me levou ao meu destino. É bom de estar de volta a Lisboa!






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